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a história do treino intervalado

criado nos anos 1930, o treino intervalado se tornou uma das bases da corrida moderna.

tiros curtos, pausas controladas, alternância de ritmos, frequência cardíaca e recuperação ativa hoje parecem conceitos naturais para qualquer corredor. mas a construção desse método atravessa décadas, guerras, escolas diferentes de pensamento e alguns dos maiores nomes da história do atletismo.

a origem do treino intervalado

existem registros informais ainda no começo do século xx. em 1902, o britânico joe binks – então recordista da milha com 4:16 – já realizava sessões semanais alternando esforços máximos. a estrutura era simples: séries curtas de velocidade em máxima intensidade, seguidas de períodos de recuperação. porém, ainda distante do refinamento científico que surgiria depois.

1910, a primeira abordagem mais estruturada. lauri pihkala, atleta, treinador e escritor, defendia sessões alternando intensidade e recuperação – entre seus discípulos estavam nomes como paavo nurmi e hannes kolehmainen – corredores da geração dos “finlandeses voadores”.

kolehmainen conquistou ouro olímpico nos 5.000 metros, 10.000 metros e cross-country nos jogos de 1912. anos depois, existem registros de cartas enviadas a paavo nurmi recomendando a inclusão de mais estímulos alternados e sprints curtos no treinamento.

na época, a finlândia atravessava um contexto político complexo. o país ainda fazia parte do império russo e quando kolehmainen venceu o ouro olímpico, foi a bandeira russa que subiu ao pódio. o finlandês teria comentado que preferiria não ter vencido.

a abordagem sistematizada

foi nos anos 1930 que o treino intervalado ganhou uma estrutura realmente sistematizada. o treinador alemão woldemar gerschler passou a desenvolver sessões controladas através da resposta cardíaca ao esforço. ao lado do cardiologista herbert reindell, criou uma lógica baseada em elevação e recuperação da frequência cardíaca.

o conceito era relativamente simples: o atleta realizava repetições curtas e intensas até elevar a frequência para cerca de 180 bpm. depois, descansava até retornar aproximadamente para 120-125 bpm antes de iniciar o próximo tiro. a sessão era encerrada quando a frequência não retornava ao nível estipulado após o período de descanso.

a percepção central era que o condicionamento não acontecia apenas durante o esforço, mas principalmente durante a recuperação. as sessões eram compostas por repetições curtas – geralmente entre 100 e 200 metros – mas também poderiam evoluir para blocos maiores, chegando a 2.000 metros conforme o condicionamento avançava.

um dos grandes nomes treinados por gerschler foi rudolf harbig. a evolução impressiona:

1935: 2:04 nos 800 metros.
1938: campeão europeu com 1:50.
1939: recorde mundial com 1:46,6.

harbig também se tornou recordista mundial dos 1.000 metros com 2:21.

outro discípulo importante foi o britânico gordon pirie, recordista mundial dos 5.000 metros e medalhista olímpico. pirie descrevia o sistema alemão como muito à frente do seu tempo.

mesmo assim, nem todos concordavam com o método: o britânico roger bannister – primeiro homem a correr a milha abaixo de quatro minutos – acreditava em menor volume e maior intensidade específica. defendia sessões mais próximas do ritmo real de competição e criticava o excesso de volume pouco individualizado. para bannister, ritmos muito abaixo do máximo tornavam o treinamento entediante.

a segunda guerra mundial interrompeu parte da continuidade metodológica europeia. muitos registros se perderam. após o período, porém, surge um nome que levaria o treino intervalado a outro patamar: emil zátopek.

o tcheco ficou conhecido como “locomotiva humana”. sua abordagem prezava pela simplicidade: enormes volumes de repetições curtas.

um treino clássico incluía: 5×200, 20×400 e 4×200. com o tempo, as sessões aumentaram ainda mais: 20×200, 40×400 e 20×200. zátopek corria em diferentes terrenos, condições climáticas extremas, utilizava botas militares pesadas para aumentar a resistência e treinava em uma banheira cheia de roupa suja por duas horas.

ouro olímpico nos 10.000 metros em 1948. e, em 1952, ouro nos 5.000 metros, 10.000 metros e maratona. o volume anual impressionava: em 1954, há registros de aproximadamente 7.800 quilômetros treinados no ano. apenas março teria acumulado cerca de 935 km.

corredor. é esperando tua leitura que te mando um abraço.

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hannes kolehmainen, três ouros em 1912

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gerschler. criador do intervalado ©getty images

woldemar gerschler. criador do treino intervalado

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gerschler. criador do intervalado ©getty images

woldemar gerschler. criador do treino intervalado

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gordon pirie, discípulo do treino intervalado

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roger bannister, o primeiro sub-4 na milha

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zátopek, locomotiva humana. ©cor / afp / getty images

emil zátopek, locomotiva humana. ©efe

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©roger & renate rössing/deutsche fotothek

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